Entrevista de Pedro Nuno Santos à CARGO: «Portos têm de ser agentes de mudança»
Numa entrevista exclusiva à Revista CARGO (publicada no primeiro número da Revista CARGO de 2020), o Ministro das Infra-Estruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, percorre todos os temas da actualidade de uma pasta que, com a tomada de posse do novo Governo, viu reforçada com a tutela do sistema portuário.
Os grandes projectos em curso nos portos nacionais são um dos temas chave desta entrevista, percorrendo porto a porto alguns dos mais emblemáticos investimentos que correm de Norte a Sul. Mas também o prometido investimento na ferrovia ou o novo Aeroporto do Montijo são abordados na entrevista que se segue.
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REVISTA CARGO: A configuração deste novo Governo trouxe até si responsabilidades acrescidas, nomeadamente na pasta portuária. Que sistema portuário nacional herdou? E quais as grandes metas que define para esta área?

«Os portos nacionais são um motor essencial do desenvolvimento do país e têm de ser agentes de mudança», defende o Ministro das Infra-Estruturas e da Habitação.
O sistema portuário nacional é um pilar fundamental para o desenvolvimento económico do país e, num esforço de verdadeira concertação de todos os agentes, autarquias e administrações portuárias, precisa de ser afirmar como um hub fundamental para a internacionalização da nossa economia. Não podemos encarar as infraestruturas portuárias de forma isolada. O mar é e sempre foi um dos nossos maiores ativos. Os portos são, por isso, um dos principais elos de ligação entre comunidades e de Portugal com os seus países parceiros. Tudo o que pudermos fazer para robustecer o sistema portuário nacional terá reflexos na economia ao nível da criação de emprego, da exportação de serviços e facilitação das exportações nacionais.
Que grandes desafios identifica neste sector? Instabilidade laboral? Descarbonização? Digitalização?
Como já referi, os portos nacionais são um motor essencial do desenvolvimento do país e têm de ser agentes de mudança. Tão importante como os investimentos ou a ampliação de espaços logísticos e melhoria das infraestruturas, é a ampliação da cultura digital dos portos, assente no conhecimento e na inovação tecnológica. Os grandes factores modernos de diferenciação competitiva são as plataformas digitais, a automação, a robotização e as energias limpas. Isto tudo, claro, assente na colaboração entre todos os agentes do sector e num clima de paz social.
Particularizando: o Porto de Sines lidera a movimentação de cargas no país. Com os novos projetos para a área dos contentores (ampliação do Terminal XX e novo Terminal Vasco da Gama), que ambições existem para este porto no plano ibérico, europeu e mundial?
O porto de Sines é a maior infraestrutura nacional com um peso atualmente de 1,5% do PIB nacional, valor que quase duplicará com os investimentos que estão previstos para este porto. É justamente para Sines que estão previstos alguns dos maiores investimentos no setor para os próximos anos, nomeadamente o novo terminal Vasco da Gama, cujo concurso público internacional foi lançado em 15 de outubro de 2019 e que representa um investimento de 650 milhões de euros.
As ambições para este porto não descuram, naturalmente, o caminho que tem vindo a ser feito. Por isso o trabalho tem de continuar a ser no sentido de que este porto mantenha a sua posição de liderança enquanto maior porto do mediterrâneo no total de carga movimentada nos portos nacionais, continue a figurar de forma sólida no top 15 dos maiores portos de contentores da Europa. De igual modo, e com os investimentos previstos e que estão já em curso, afirma-se como um porto estratégico no desenvolvimento do comércio entre a Ásia, Europa e América do Sul. A concretização dos investimentos permitirá colocar o Porto de Sines como um dos principais portos de nível mundial e particularmente do ‘West Med’, em termos de oferta portuária no segmento da carga contentorizada, atingindo mais de 7 milhões TEU, garantindo capacidade para competir e atrair novas cargas e clientes, das cadeias logísticas globais, reforçando o posicionamento de Sines no contexto marítimo-portuário internacional.
Pedro Nuno Santos quer Porto de Sines «a figurar de forma sólida no top 15 dos maiores portos de contentores da Europa»
A aposta deste Governo na ferrovia é, também, um fator a acrescer às ambições que temos para o porto de Sines. O Corredor Internacional Sul, fundamental no quadro do Corredor Atlântico, vai servir bastante o porto de Sines pois pouco nos serve o investimento nos portos se estes não tiverem acessos.
Com as condições únicas do porto de Sines temos a obrigação de as aproveitar em benefício do povo, e de não descurar os efeitos desta infraestrutura tão central no desenvolvimento da economia local, regional e nacional.
Ainda sobre Sines: quando podemos esperar ter em operação o segundo terminal de contentores?
Tudo dependerá do desenvolvimento do concurso público internacional que se encontra a decorrer, estando neste momento ainda em fase de apresentação de propostas. Todavia, e considerando já com alguma variação normal dos prazos face ao decorrer do concurso, idealmente a adjudicação ocorrerá no último trimestre de 2020 e a obra poderá ter início em 2021, com uma duração aproximada de três anos.
Também o Porto de Leixões está em processo de expansão. Que posicionamento vê para este porto no sistema portuário nacional?

«Porto de Leixões é um contribuinte muito firme para que Matosinhos seja cidade de importância nacional», lembra o Ministro
São vários os investimentos previstos e em curso e que são muito importantes para que o porto de Leixões possa continuar a desenvolver-se e a servir o país. É essencial, por isso, ultrapassar os constrangimentos existentes de capacidade sob pena do porto de Leixões perder competitividade no curto prazo. O porto de Leixões tem um lugar de destaque na estratégia para o desenvolvimento da competitividade do sistema portuário nacional, que resulta da sua trajetória, da sua eficiência, da sua paz social e de uma conjugação de esforços de todas as partes. Esta estratégia definiu como meta para o porto de Leixões atingir um crescimento de 73% na carga contentorizada até ao final de 2026, e é esse percurso que temos de ajudar a percorrer.
Outro porto com projetos importantes em curso é o Porto de Lisboa. Acredita que ainda há esperança de que este Porto ganhe a importância que teve outrora? Ou, no futuro, tem ambição de retirar os terminais de carga do centro de Lisboa, nomeadamente para a margem sul ou até mesmo apostando forte no Porto de Setúbal?

Pedro Nuno Santos sobre o futuro do Porto de Lisboa: «a relação porto-cidade deve ser apoiada»
Por outro lado, há uma tensão entre o porto e a cidade. Mas esta é uma não questão porque, na verdade, as zonas portuárias têm sido ao longo dos anos áreas urbanas centrais da cidade com reordenamento constante. Lisboa nasce, historicamente, com o seu porto. Não faz sentido perpetuar este conflito. A relação porto-cidade deve ser apoiada, pois só assim se fomenta o desenvolvimento daquela região e do país.
É por isso que as projeções para os próximos 10 anos perspetivam uma retoma do crescimento da movimentação de mercadorias, com destaque para a evolução da carga contentorizada e dos granéis sólidos, sendo fundamental o investimento de 122 milhões de euros na melhoria da eficiência do Terminal Contentores de Alcântara e que se traduzirá numa eficiência brutal no porto de Lisboa.
Em Setúbal, o porto local tem enfrentado contestação face às dragagens que permitirão navios de maiores dimensões e maior segurança na navegação. Podemos dizer que o equilíbrio entre a sustentabilidade ambiental e o desenvolvimento económico é o grande desafio neste caso e extensível às grandes obras que tutela?

«Vivemos um tempo em que todos os investimentos em infraestruturas são vistos como um problema», lamenta o Ministro.
Não há, naturalmente, grandes obras que tenham impacto zero; mas o que deve ser assegurado – Agência Portuguesa do Ambiente faz bem o seu trabalho de escrutínio – é um equilíbrio entre todas as componentes da obra e, havendo impactos, assegurar que estes sejam convenientemente mitigados.
Assumiu a pasta da ferrovia numa fase em que o Ferrovia 2020 parecia não arrancar. Já podemos dizer que o Ferrovia 2020 está finalmente em velocidade de cruzeiro?
O Ferrovia 2020 já tinha arrancado, mas uma coisa é arrancar a fase de projeto, outra é a fase de obra. Se neste momento temos obras no terreno em todos os principias corredores da rede e começamos a ter algumas conclusões de obras, se hoje estamos em “velocidade de cruzeiro” – é porque foi feito antes de eu ter assumido a pasta um trabalho preparatório essencial. Agora, as dificuldades que tivemos no arranque das obras deste programa são bem conhecidas e eu já tive oportunidade de as reconhecer e discutir por diversas vezes. O que estas dificuldade nos mostram é o quão importante é manter um ritmo de investimento permanente e sem interrupções. Quando se interrompe o investimento, as empresas e as pessoas que trabalham neste setor têm de se virar para outro lado, para outro tipo de obras ou para outros países. A única forma de nós recuperarmos a capacidade de fazer projeto, de fazer obra ferroviária que já tivemos e deixámos de ter é dar certezas às pessoas e às empresas, manter esta “velocidade de cruzeiro” para que o investimento não termine com o final do Ferrovia2020.
Pedro Nuno Santos não quer que investimento na ferrovia «termine com o final do Ferrovia2020»
O transporte ferroviário pareceu descurado durante muitos anos. Porém, o Ministro já admitiu que é uma das suas prioridades. Quais as grandes vantagens que identifica na aposta do transporte de mercadorias e na transferência modal (nomeadamente da rodovia para a ferrovia)?

«Não há nenhum transporte que consiga bater o comboio no custo»
Se nós queremos que o país se desenvolva, que as exportações cresçam, é fundamental ser capaz de oferecer uma rede de transportes que tenha capacidade para isso e que seja fiável e eficiente. A ferrovia é a espinha dorsal dessa rede.
Quais as grandes prioridades e metas definidas para o transporte ferroviário de mercadorias nacional?
A prioridade é manter e aumentar o nível de investimento. O país passou demasiado tempo a investir muito na rodovia e a deixar o caminho-de-ferro definhar. Esse ciclo terminou! Agora temos de correr para recuperar o tempo perdido. Precisamos de continuar a investir para lá do Ferrovia 2020. Por isso, temos um PNI2030, que está a ser avaliado pelos técnicos do Conselho Superior de Obras Públicas, e vamos ter um Plano Ferroviário Nacional. Estes dois instrumentos são os que nos vão permitir delinear as prioridades de investimento no médio e no longo prazo e, sobretudo, dizer o que é o país espera da sua ferrovia.
«O país passou demasiado tempo a investir muito na rodovia e a deixar o caminho-de-ferro definhar», admitiu o governante à Revista CARGO
Eu sei que isto é uma revista dedicada ao transporte de mercadorias, mas é importante referir que o investimento na ferrovia para os passageiros não entra em competição com o investimento para as mercadorias. Pelo contrário, muitos dos investimentos que teremos de fazer servem em simultâneo para aumentar a velocidade e capacidade do transporte de passageiros, e a capacidade e fiabilidade do transporte de mercadorias. O crescimento da ferrovia e a transferência modal da rodovia anda a par nos passageiros e nas mercadorias.
O ano de 2019 foi de turbulência no sector do transporte rodoviário de mercadorias, com a greve dos motoristas de matérias perigosas. Acredita que o problema foi resolvido de vez? Considera este acordo a sua principal vitória desde que assumiu a pasta das Infraestruturas?
A paz social e a consciência por parte dos trabalhadores que eles são respeitados são condições muito importantes para que o setor do transporte rodoviário de mercadorias possa desenvolver as suas atividades com ganhos para todos, empresas e trabalhadores, e com ganhos também para a economia nacional. A vitória foi sobretudo das empresas e dos trabalhadores, que conseguiram um acordo muito importante.
Por falar em desafios, não poderíamos deixar de falar do novo aeroporto no Montijo. Pergunto-lhe de que forma este novo aeroporto poderá também ajudar ao aumento da movimentação de carga aérea em Portugal?
O transporte de carga é um complemento bastante importante para as companhias aéreas que transportam passageiros. No entanto, o novo aeroporto no Montijo está a ser pensado principalmente para a atividade de passageiros, mantendo-se a atividade de carga no Aeroporto Humberto Delgado. Recordo que as companhias que vão utilizar o Montijo serão essencialmente de baixo custo, que não dependem do transporte de carga para o seu modelo de negócio.

Fonte: Revista Cargo


